A Torre é uma carta do tarô que mostra algo aparentemente bem forte e sólido desmoronando. Foi essa a carta que a cartomante tirou dizendo que ela representava 2011 pra mim.
Antes que eu entrasse em pânico ela me explicou que, apesar de dura, essa carta traria boas coisas no futuro. Tudo que eu tinha construído até então, cairia, porque a base não era boa o suficiente para aguentar aquele peso. Crescer mais seria impossível. Seriam mudanças intensas e dolorosas, mas seria também uma liberação e a chance de construir algo muito maior e melhor.
Foi assim pra mim, foi assim pro mundo. Vimos grandes impérios cairem. Um ano de marchas, brigas, ocupações, protestos, rompimentos, separações. Um ano de gritos ensurdecedores dizendo “Eu não aceito mais isso!”
Eu gritei junto. E como gritei. Gritei durante 12 largos meses. Sobrevivi.
Das metas que tracei pro meu ano, briguei, aprendi e redescobri a mais importante: terminar o ano no caminho oposto de um jovem monolito. E pra ter certeza que você vai entender isso, aqui vai a explicação:
Ao completar trinta anos, você ganhará os olhos duros dos sobreviventes. Só verá sua amada na parte da manhã e da noite, só encontrará seus pais de vinte em vinte dias. E quando seus velhos morrerem, você ganhará um dia de folga para soluçar e gritar que deveria ter ficado mais próximo deles. Sorria, você é um jovem monolito e a vida vai ser pedrada. O trabalho é uma grande cadeia e você sentirá muito alívio por ter uma. A cadeia engrandece o homem, o sangue do dinheiro tem poder. Reze. Reze ajoelhado por uma carreira, dê a sua vida por ela. Viva como todo mundo vive, você não é melhor que ninguém. Porque o dinheiro move montanhas, o dinheiro é a igreja que lhe dará o céu. Sorria, você é um jovem monolito e o mundo é uma pedreira. Eles irão moer você todinho. De brinde, muitos domingos para chorar sua falta de tempo ou operar uma tendinite. Nas terríveis noites de domingo, beba. Beba para conseguir dormir e abraçar mais uma monstruosa segunda-feira. Aquela segunda-feira que deixa cacetes moles e xoxotas secas para sempre. A vida é uma grande seca, mas ninguém sente calor: Nas salas refrigeradas, seus colegas de trabalho fabricam informação e, frios, sonham com o dia dez do próximo mês. Você é o Babaca do Dia Dez, não há como mudar o seu próprio destino. Babaca que acorda assustado, porque ninguém deve atrasar mais de vinte e cinco minutos. Eles descontam em folha e você é refém da folha, do salário, do medo. Ninguém tem o direito de ser feliz, mas você ganhará a sua esmola de seis feriados por ano. E todos nós vamos enfrentar, juntos, um imenso engarrafamento até a praia. Para fingir que ainda estamos vivos. Para mostrar que ainda somos capazes de sentir prazer. Para tomar um porre de caipirinha sentado em uma cadeirinha de praia. É uma grande solução. E você ainda ganhará quinze dias de férias para consertar a persiana, pagar contas, fazer uma bateria de exames. Ninguém quer morrer do coração, ninguém quer viver de coração. Eu não duvido da sua capacidade de vencer: Lembre disso no primeiro divórcio, no primeiro infarto, no primeiro AVC.
Monumento a um jovem monolito – Andre Dahmer
No dia remoto em 2010 que eu li esse texto, fiz um pacto comigo mesma de não ser um jovem monolito. Eu pedi demissão do trabalho que não me trazia mais felicidade, cortei hábitos e pessoas que não que me agregavam em nada. Por vezes, muitos me viram e me veem como inconsequente, mas quer saber? Nunca aprendi tanto, vivi tanto, falhei tanto ou senti tanta vontade de mais mundo quanto em 2011. Larguei lamentações e estou largando aos poucos meu medo de tentar. Houve feridos, houveram mortos, houve mudanças, mas eu sigo. E por mais clichê que seja: harder, better, faster, stronger.
É isso que eu quero te dizer antes de 2012 começar. Faça um favor pro planeta e pra si mesmo e seja você. Explore este mundo inteiro que está recomeçando. Mas acima de tudo, por favor, não se conforme e faça algo. O mundo não precisa de mais jovens monolitos.

