A gente já sabe que falar de novela e associá-la ao público feminino é clichê (e dos feios). Por isso, explico que vou aqui nos associar a um episódio da mais famosa trama diária novelesca por outro motivo.
Conto aqui onde a novela nos cabe para entender esta selvageria chamada vida real, este mar de simbologias, de significantes e significados e moralismos ultrapassados. Eu, que sou fiel telespectadora da novela das oito há exatos dois capítulos, venho por meio destas mal traçadas linhas explicar um pedaço da trama de Insensato Coração para você, cara leitora, que tem mais o que fazer desta vida.
Cecília é uma garota do bem. Para atentar a este fato aos telespectadores, o autor da novela coloca Cecília com uma mãe chata (arrogante, prepotente e ambiciosa) enquanto a difere da mesma pela pureza, sinceridade, honestidade. Cecília cursa Direito e é ótima aluna. Foi ali que conheceu Rafa, seu namorado atual, menino rico e bonito para o padrão Capricho e com quem até sexta-feira casará, terá gêmeas, morará no campo numa casa com horta e varanda e será feliz para sempre.
Acontece que um casal assim feliz não tem muita graça, não é mesmo? Como a vida real não tem muito de conto de fadas, todo casal de novela tem de viver dias de amarguras para poder ser feliz no último capítulo e, lá sim, jurar amor eterno e viver uma vida de mar de rosas longe dos nossos olhos.
Para apimentar a relação de Cecília e Rafa, um vilão entrou na história e aprontou horrores: filmou uma cena caliente do casal e jogou na web. Cecília chorou, terminou com Rafa porque achou que ele é que tinha feito a malvadeza e caiu nos braços do vilão. Conclusão: o vilão praticamente a estuprou e agora que ela já voltou para os braços de seu verdadeiro amor, descobriu estar grávida. Do vilão.
É claro que Cecília, menina pura, quer o bebê, já ama o bebê, mesmo odiando o cara que a estuprou. Olha aqui o moralismo da Rede Globo nos atormentando: mocinhas do bem não fazem abortos. Sem querer querendo entrar na discussão da legalização ou não do aborto, cabe ressaltar aqui que o aborto não é crime quando a gravidez é decorrente de um estupro. Logo, perante a lei, nossa mocinha podia abortar. Mas não abortou, claro, porque é do bem, é da Globo e carregará seu fardo pesado para ser recompensada no fim da trama. Que lógica cristã é esta que nos é, dia após dia, enfiada guela abaixo?
Em meio a estes modelos novelísticos, lembrei daquele caso de sempre: Sandy. A cantora é sempre lembrada por ter marcado uma geração de meninas (a minha, inclusive) ditando a moda do bom-mocismo virgem. E foi um fardo para muitas. No entanto, cabe lembrar que antes de cantora famosa, Sandy também é gente como a gente, cresceu sob os holofotes, não pode acertar sempre e acabou agindo de certa forma que a colocou num pedestal. Entre a devassa e a santa, certamente há uma Sandy que não nos cabe. E há aquela Sandy que compramos da mídia. Quando não há Sandys à venda, compramos a veracidade das mocinhas de novela.
Para resolver a situação da novela de forma cômoda (afinal, aposto que nem mesmo o autor conseguia ver felicidade no novo casal vivendo com o filho do fruto de um crime), o autor decidiu fazer a mocinha apanhar do vilão e perder o bebê. Muito mais digno do que ser sensata e não querer o bebê (o feto, no caso, convenhamos). Afinal, parece que só se pode ser feliz depois de muito sofrimento e passividade. A mocinha é boa, mas não luta pelo que quer. É do bem, mas aguenta o mal, precisa ser salva por alguém. Parece que não se pode buscar pela própria felicidade. E que a validação do caráter e da virtude da moça está na quantidade de cruzes que ela consegue carregar.
Acho isto tudo muito ultrapassado, você não?
PS: Mas, enfim, o que esperar destas emissoras que proíbem em pleno 2011 o beijo entre casais do mesmo sexo?








